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Posts Tagged ‘França’

10/IV/14

Marselha

Agora só me resta esperar até amanhã, mais ou menos nesse horário, 15 horas para mim aqui em Marselha, o que corresponde as 10 horas na Ilha da Fantasia, ou Brasília. Até lá não tem jeito, é preciso aguardar. Vim até essa dinâmica e bastante particular cidade do sul da França para obter o visto de entrada na China.

Escrevo do hotel. Não vale a pena ir e voltar para Nice, dois dias seguidos. Pagando a taxa de urgência o consulado libera o visto de um dia para o outro. Foi a minha opção, diante da decisão de viajar a China na última hora. Caso contrário o prazo para entrega do passaporte seria maior.

Está custando caro esse visto. Resido distante 230 quilômetros de onde estou, avenida que me leva para o porto de Marselha. Para vir e regressar a Nice gasto um tanque (60 euros ou R$ 204). Há ainda o pedágio (32 euros ou R$ 108), uma diária de hotel (98 euros ou R$ 333), a elevada taxa cobrada pelo consulado, cerca de 100 euros (R$ 340) e as despesas com alimentação, almoço e jantar hoje e almoço amanhã (90 euros ou R$ 306). Em resumo, o visto vai sair algo como 380 euros ou R$ 1.300.

Cheguei a Marselha pela autoestrada A8. Foram duas horas e meia de deslocamento. Em parte dela a velocidade é limitada a 110 km/h e em outra, 130 km/h. Não seja flagrado acima dos limites. A multa é cara e a coisa é séria, aqui. Há radar e polícia para todo lado. Os franceses são exigentes quanto ao cumprimento das leis de trânsito.
A minha direita, o Mediterrâneo

Em compensação, vou regressar pela A50, se bem me lembro a identificação da estrada, por ser um caminho lindo. Seguimos ao lado do Mediterrâneo o tempo todo, até Toulon. Mais ou menos 30 quilômetros depois de deixar Marselha há uma pequena cidade que adoro, uma poesia, Cassis, à beira mar. Tudo é muito bem construído, organizado, limpo, nessa época as ruas começam a ficar floridas, enfim, o sul da França tem muitos atrativos e Cassis é um deles. Ah, come-se bem lá.

Enquanto Cassis expressa o melhor espírito francês, Marselha na maioria das vezes não o remete a França. Depois que o Marrocos, a Argélia e a Tunísia se livraram do domínio da França, houve uma forte imigração de cidadãos desses países, em especial, para cá.
E a cidade escolhida foi Marselha, pela proximidade geográfica e pelo clima, pois não faz muito frio nessa região. Hoje, por exemplo, estamos agora, 16 horas, com 15 graus. Disseram-me que ontem estava mais quente. Vale lembrar que aqui no hemisfério norte vivemos a primavera.

Há bairros de Marselha em que se tem a impressão de realmente não estar na França. A porcentagem de indivíduos de origem marroquina, tunisiana e argelina impressiona. O árabe é uma língua muito falada na cidade. A cultura desses povos emana por toda parte por aqui. Dos 1,5 milhão de habitantes da área urbana de Marselha creio que metade tem origem no norte da África.

Sobra simpatia

Nunca fui num único local aqui em que demonstraram desinteresse em me atender ou mesmo foram rudes, como é relativamente comum na França, em especial em Paris. O casal que me atendeu há pouco no restaurante me sensibilizou. Idosos, procuraram ser gentis de toda maneira. Não é esse o padrão de atendimento por estas bandas.

Assim que acabar de redigir esse texto vou até o porto velho, lugar magnífico, bem preservado, cheio de restaurantes e bares, a maioria de bom gosto. Seu nome é Le Painer, aprendi quando lá estive. Há ali também um mercado de peixes bastante ativo, chamam a área de Quai des Belges. Adoro visitar mercados. Seja onde estiver, vou aos mercados.

Eles me revelam traços importantes da cultura de seus povos. Senhores, mercado, hein, não supermercado. Estes foram pasteurizados e seguem aproximadamente o mesmo modelo no mundo todo e quase nada de original revelam.
Igreja impressionante

Uma ocasião fui visitar a imponente basílica Notre-Dame de la Garde, ou Nossa Senhora da Guarda, localizada no topo de uma colina, com uma estátua de Nossa Senhora imensa, banhada em ouro, no topo da torre.

A igreja não é muito antiga, remonta ao século XIX. Se levarmos em conta que Marselha começou a existir com o gregos e depois os romanos a tomaram, coisa aí de 2.200 anos atrás, então o século XIX representa simplesmente ontem. Tem-se uma vista esplendorosa da área do redor da basílica.

Voltando, olha que já rodei por esta Europa, mas não me lembro de ver uma estátua tão grande numa torre como aqui. A Nossa Senhora dourada deve ter uns 15 metros, pelo menos, e está sobre uma torre de não menos 40 metros de altura. O conjunto o deixa atônito, precisei de minutos para sair daquele estado de contemplação máximo.

Ainda não tive a chance de ir, mas assim que for possível pretendo visitar um local onde há cavernas habitadas por homens da pré-história. Há várias delas por aqui. Antropologia me fascina, sem passar a ideia de que entendo do assunto, por favor. A mais famosa é a Caverna de Cosquer, li uma reportagem sobre ela. É preciso agendar a visita e pelo que me informei há uma lista de espera. Mas deve valer muito a pena.

Terra da lavanda

Bem, seu eu continuar contando tudo ficarei aqui até bem mais tarde e pretendo dar uma volta, agora. Ia me esquecendo, pertinho daqui existe uma cidade chamada Aix-en-Provence, mais caracterizada por vida acadêmica.
Mas nos campos ao seu redor há muitas pequenas propriedades rurais que se caracterizam por plantar a lavanda, planta arbustiva de uns 80 centímetros de altura, de cor azul tendendo para o roxo. Os ramos juntos definem um conjunto de beleza rara. Tudo fica azulado, a mercê dos desejos do vento.

No Brasil a lavanda é também conhecida por Alfazema. Tem alto uso industrial na área de cosméticos. Seu odor agrada muita gente. Nesta época do ano estão começando a florescer. Para quem deseja ver esses campos magníficos, o mais indicado são os meses de junho, julho.

Para finalizar, queria lembrar que no ano passado vim para esta região para produzir uma reportagem sobre algo que realmente aprecio profundamente e, diante de ler muitas publicações a respeito, adquiri uma base mínima de conhecimento, a Física.

Reproduzir o sol na Terra

Depois de Aix-en-Provence podemos seguir por uma pequena estrada que leva a Cadarache, centro francês de pesquisa nuclear. É lá também que está instalado um dos projetos mais ambiciosos da humanidade, o Iter, ou International Thermonuclear Experimental Reactor. Para ser bem objetivo: deseja reproduzir o sol na Terra.

Estamos falando de fusão nuclear. Criar condições, elevando a temperatura a impensáveis 150 milhões de graus Celsius, ou dez vezes mais que no interior do sol, a fim de provocar a fusão de dois isótopos de hidrogênio para gerar um átomo de hélio. Bem genericamente, é o que ocorre na nossa estrela e tanta energia é capaz de gerar.

O sol conta com a gravidade de uma esfera de hidrogênio em estado plasmático de quase um milhão e meio de diâmetro, o que provoca uma gravidade elevadíssima no seu núcleo, onde ocorre a fusão. Mas na Terra não há como ter uma gravidade dessas.
A saída é levar o isótopo de hidrogênio a atingir o estado de plasma, imprescindível para gerar a fusão, através da elevação exponencial da temperatura. Dá para ter uma ideia do desafio tecnológico que o projeto representa? Produzi uma reportagem de página inteira para o Estadão, na época, com gráficos e desenhos. O tema é fascinante.

Se alguém conseguiu ler este texto até aqui, parabéns. Nos dias de hoje, mais de 20 linhas já é considerado um ensaio. Quando começo a redigir e tenho um tempinho, como agora, vou embora. Azar de vocês. Ciao, estou saindo para o porto velho de Marselha. Abraços!

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