Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘engenharia’

09/IV/14

Nice, França

Lembro-me perfeitamente. Estávamos na área coberta do motorhome da Mercedes, no autódromo de Jerez de la Frontera, em fevereiro do ano passado, quando perguntei a Ross Brawn, diretor técnico da equipe alemã: “Ross (ele gosta de ser chamado assim), você deve saber tanto quanto nós, jornalistas, que aqui no paddock se diz que no seu time há muito cacique para pouco índio. O que você acha disso?”

Fiz a pergunta porque a Mercedes havia contratado Bob Bell, ex-diretor técnico da Renault, Geoff Willis, ex-diretor técnico da Red Bull, Aldo Costa, ex-diretor técnico da Ferrari, e esperava-se a chegada de Paddy Lowe, ex-diretor técnico da McLaren, o que acabou por acontecer.

O engenheiro inglês por trás dos sete títulos de Michael Schumacher, dois na Benetton e cinco na Ferrari, riu antes de me responder: “Nós fizemos um planejamento estratégico visando este campeonato (o de 2013), mas principalmente o de 2014, quando uma nova Fórmula 1 vai surgir. Realizamos uma divisão de responsabilidades no grupo técnico que precisou ser reforçado. Já iniciamos nossos estudos sobre as novas regras e ficou claro que a revisão será profunda. Não acredito que o Mundial de 2014 vai começar como vai acabar o deste ano”.

Acertou na mosca

Palavras sábias. Foi exatamente o que ocorreu. A Red Bull venceu com Sebastian Vettel as nove etapas finais da última temporada e depois de três corridas disputadas, este ano, o melhor que conseguiu foi o terceiro lugar de Vettel no GP da Malásia.

O tetracampeão do mundo soma 23 pontos, ocupa a sexta colocação entre os pilotos, enquanto o líder é Nico Rosberg, da Mercedes, com 61, seguido pelo companheiro, Lewis Hamilton, 50. Entre os construtores, a Red Bull está apenas em quarto, com 35 pontos, ao passo que a Mercedes, primeira colocada, já tem 111.

Conversei longamente com Jackie Stewart sábado no circuito de Sakhir, em Bahrein. Tenho ótima relação profissional com ele. Cresceu muito depois que fizemos juntos alguns eventos para a Ford. O escocês me disse que o estágio avançado da Mercedes, hoje, tem origem no planejamento que fizera lá atrás, com a completa reestruturação do departamento técnico iniciado por Ross Brawn. Veja como a história bate.

Obviamente, a imensa capacidade de os técnicos da Mercedes em produzir a unidade motriz, motor e sistemas de recuperação de energia, mais eficiente da Fórmula 1 representa a base, também, do sucesso que a escuderia vem obtendo este ano. Mais: a diferença para os adversários é tão grande que não existe perspectiva, ao menos a curto prazo, de essa dominância ser perdida.

Os técnicos dos fabricantes de motores não podem falar com os jornalistas. Precisamos fazer um pedido por escrito, enviá-lo à assessoria de imprensa da equipe e aguardar a eventual autorização, nem sempre possível. Aliás, na maioria das vezes, negada.

Explicação dos adversários

Mas domingo conversei com um velho amigo da Renault e ele me dizia, com extrema lucidez, como sempre: “Livio, nós estamos na primeira versão da nossa unidade turbo, estamos ainda aprendendo, desenvolvendo-a. Já a Mercedes, por ter começado bem antes de nós, que a Ferrari também, e provavelmente ter investido muito mais dinheiro, está na terceira geração do powertrain (unidade motriz). Eles já passaram há muito pela fase de descobertas que experimentamos ainda hoje. É natural, portanto, que sua unidade motriz responda com mais potência e sua confiabilidade seja maior”.

Não há, para mim, amigos, melhor explicação do que esta para entender, em parte, a vantagem técnica da unidade motriz da Mercedes em relação a que Renault e Ferrari produziram para a Fórmula 1. Os alemães planejaram, investiram e começaram a trabalhar mais cedo que os franceses e italianos. Para não mencionar sua reconhecida competência histórica.

Em conversa também com outro técnico amigo de um grande time, uma estupidez não poder citá-lo, coisas de uma Fórmula 1 anacrônica, ouvi o que já sabia, mas não no nível de detalhes exposto. De novo, veja como faz todo sentido. “A Mercedes contou com uma grande vantagem em relação a unidade motriz que nós utilizamos”, disse-me. Eu cito, Renault.

“Eles têm time próprio. Projetaram a unidade motriz para o carro e o carro para a unidade motriz. No nosso caso, recebemos em maio do ano passado os primeiros desenhos em CAD (computadorizados) da unidade motriz e foi a partir desse material virtual que começamos a efetivamente projetar o modelo deste ano.”

Observe como é diferente você conhecer em profundidade as características da unidade motriz, dispor dela ao seu lado o tempo todo, e num certo sentido apenas imaginar como melhor acomodá-la no carro, com toda sua imensa complexidade, este ano, como fizeram os adversários da Mercedes. “Distribuição de peso, necessidades de ventilação, esta com enorme interferência no projeto aerodinâmico, são facilitados pelo fato de você produzir a sua própria unidade motriz, dentre tantas outras coisas.”

O amigo me disse mais: “Sem tirar o mérito do grupo que concebeu o carro da Mercedes, onde há gente que conheço e sei da sua capacidade, mas é preciso salientar que eles contaram com informações fundamentais que, com exceção da Ferrari, que é o mesmo caso da Mercedes, os demais não tiveram”.

Em 2015 competição será mais justa

Para esse técnico amigo de uma organização vencedora, apenas na próxima temporada, quando também os times que não têm unidade motriz própria, mas vão conhecer melhor suas características, farão um carro que possa, desde o início da temporada, desafiar os que têm atrás de si estruturas como a Mercedes e a Ferrari.

“A disputa será mais justa. Já saberemos melhor como temos de reagir a essas unidades motrizes, quais as soluções do chassi mais aconselháveis. Além disso, as próprias unidades motrizes vão responder com maior equivalência no compromisso potência, consumo e resistência em relação a hoje, haverá menos diferença entre Mercedes, Renault e Ferrari.”

O técnico afirmou, ainda: “Espero que a FIA se sensibilize e faça como já fez quando congelou o desenvolvimento dos motores. A Renault levou ao pé da letra a regra e ficou para trás. A FIA autorizou a Renault modificar áreas do motor, que em princípio o regulamento não permitiria, para haver maior equivalência com os outros motores em uso na Fórmula 1 e foram desenvolvidos”.

Aqui entra em cena, de novo, o que o amigo da Renault me disse, a Mercedes está já na terceira geração da sua unidade motriz enquanto a Renault, na primeira. Em 2015, a diferença impensável e até comprometedora deste ano tenderá a ser muito menor ou mesmo deixar de existir.

O tema “Por que a Mercedes está tão na frente dos adversários” é amplo e se estende para bem além das fundamentadas explicações que amigos, profissionais da Fórmula 1, me deram no paddock, em Bahrein, e compartilho com vocês. Lá em Xangai, com o fuso horário ainda mais a favor, pois em vez de uma hora a mais apenas em relação a Europa continental, como em Bahrein, serão seis.

O que quer dizer que os amigos que fiz nos meus 24 anos de Fórmula 1 poderão conversar comigo menos estressados com a pressão exercida pelo tempo. Bom para mim, pois representa uma oportunidade ainda maior de aprender. Parte dessas conversas virão parar aqui no blog, como as deste post.

Existem outras razões, logicamente, que explicam a importante vantagem técnica estabelecida pela Mercedes este ano. Vamos falar sobre elas, com certeza, mais para a frente. Combinado? Abraços, amigos.

Read Full Post »